MINHA MÁGOA COM A HISTÓRIA

Lembro direitinho daquilo que motivou meu interesse por História. Em minha casa, além do indefectível Jorge Amado, da coleção do Lobato, dos livros do Círculo do Livro e dos fascículos da Abril, havia um bocado de livros do que genericamente poderíamos chamar de romance histórico ou que tinham algum diálogo com o passado. Coisas tipo O Judeu Errante, de Eugène Sue; O Egípio e O Romano, de Mika Waltari. Li até Os Miseráveis, sem pular as chatíssimas descrições das batalhas que cercavam Paris na época.

Meu pai era um filho de portugas que não concluiu nem o primário, não era nenhum intelectual, mas, gostava de ler e de ouvir música em sua vitrola. Assim, descansava de seu trabalho pesado. Aquilo o acalmava e começou a me acalmar também. Éramos pobres de direita? Acho que não, meu pai dizia ter inclinações socialistas. Eu, de fato, nunca gostei de utopias. Se é para sonhar, que venham os delírios!

Eu não tinha a menor ideia de que havia qualquer espécie de trabalho intelectual profissional. E achava sinceramente que História era algo semelhante àquelas narrativas.

Eu já estava envolvido com teatro, desde a adolescência. Neste meio, já convivia um pouco com um pessoal riponga, meio punk e com os politizados. A MPB e os filmes nos tornavam “engajados”. Mas, embora soubesse, por alto, que o “materialismo era histórico e dialético”, ainda insistia em algum lugar de meu espírito uma visão de História mais próxima de um gênero da narrativa.

Imaginem, então, minha frustração quando, ao ingressar no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/UFRJ, na Faculdade de História, tive que conviver com perspectivas de História que, sobretudo, denegavam (Caro leitor, leitora, procure apreender o sentido psicológico do termo “denegar”, porque é isso mesmo que estou dizendo.) o caráter ficcional da escrita histórica: marxistas, positivistas, neopositivistas, estruturalistas... Havia, é claro, a leitura herética do pós-estruturalismo, a chegada da desconstrução. Mas, lá no andar de cima, onde comecei a andar cada vez mais, na Filosofia.

Em História, se você sacasse um Hayden White e metesse uma meta-história seria chamado, nos termos de hoje de fascista, golpista, taxista, ascensorista... O termo da época era “reacionário”, ou “reformista”.

Foi assim que comecei a desenvolver certa mágoa da História. Como aquilo tudo era xiita chaato! Cagar regra à esquerda, cagar regra à direita. Concluí a graduação, mas, morava mais no andar de cima, a Faculdade de Filosofia. Dela, mudei em definitivo para as Letras. Porém, como nada é perfeito, a Faculdade era dominada pelo objetivismo abstrato e pelo cientificismo difuso daquilo que chamam de Linguística. Porém, por mais estranho que me soe o termo “Ciência da Literatura”, quase tão esquisito quanto “Ciência Política”, é ainda permitido, no mundo das Letras, saborear um texto e devorar ideias pelo prazer (ou necessidade anímica) de fazê-lo.

Que bom que estou velho! Acho que sempre fui meio velho...


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